A grande pergunta que a leitura das páginas desse primeiro e brevíssimo livro de Georges Bataille suscitou em mim é a grande pergunta que eu mesmo gostaria que os leitores do meu livro se fizessem no desvendar sucessivo das páginas.

Estranhamente, não encontrei essa pergunta nos elaborados ensaios que li sobre o livro. Eliane Robert de Moraes, Michel Leiris, Barthes, Cortázar e Vargas Llosa escreveram sobre ele. São textos muito interessantes; realmente dá para viajar muito nessas páginas da “História do Olho” – possivelmente um dos livros mais escolhidos para trabalhos acadêmicos de psicologia.

A história do livro, se conhece: Bataille era um jovem arquivista na Biblioteca de Paris atormentado por uma infância traumática - o pai sifilítico, cego, paralítico e louco; a mãe igualmente louca e suicida na sequência – e pela infrutífera aspiração para escritor. O empurrão foi dado pelo psicanalista Adrien Borel que pediu que Bataille escrevesse sem amarras. Dessa iniciativa surgiu a “História do Olho”.

A história em si reúne um jovem e sua amiga em brincadeiras sexuais cheias de imagens fortes e impressionantes. Uma outra amiga se une a eles brevemente, pois é internada num sanatório e, em seguida, se mata.

O jovem casal sem idade parte então para uma jornada de sexo, morte e devassidão apoiados por um patrocinador inglês. A penúltima cena, que deveria fechar o livro, é assustadora em imagens e palavras. Mas talvez o assustador esteja no último capítulo, chamado de “Reminiscências” em que Bataille tenta dar um norte para a relação entre os fatos da história e de sua própria vida.

Antes mesmo de ler essa parte, eu já havia me feito a grande pergunta várias vezes. E qual seria essa grande pergunta? A seguinte: até que ponto o que o livro conta pode ter sido ou ser realmente realidade?

Sim, pois o que lemos nos impressiona e nos tira de nossa razão de maneira surreal – e o choque da realidade quando olhamos em volta, a posteriori, parece ser o questionamento sobre todas as pessoas comuns e o que de fato eles podem ser capazes de fazer!

(Tela “Corrida au Soleil”, de André Masson, surrealista francês, que ilustrou “A História do Olho”, de Georges Bataille)

- Acontece já na segunda página, de forma memorialista e real: “Lembro-me de um dia em que passeávamos de carro, em alta velocidade. Atropelei uma ciclista jovem e bela, cujo pescoço foi quase arrancado pelas rodas. Contemplamos a morta por um bom tempo.”.

Teria isso acontecido de fato? Ao assumir o tom autobiográfico, inclusive no adendo final, Bataille nos coloca mais medo. E aponta que talvez as perversões das mentes humanas podem ser realmente chocantes quando olhadas bem de perto. Talvez por isso, mas não somente, o livro tenha esse nome.