Dois filmes de terror apocalíptico, lançados quase ao mesmo tempo.

À frente de “O Fim dos Tempos”, o cultuado M. Night Shyamalan, diretor de filmes fantásticos, cuja carreira estava à prova depois do espezinhado “A Dama na Água”. Shyamalan estava, aparentemente, em seu habitat: os rumores do enredo eram de um “inimigo invisível” que atacava a Terra – e o diretor bem gostava de “assustar sem mostrar”.

O projeto “O Nevoeiro” era visto com desconfiança, tinha uma trama fantástica demais para um diretor que escolhia temas mais humanizados da obra de Stephen King. Outros filmes já haviam sido feitos com o mesmo tema do “nevoeiro” e a expectativa era que Frank Darabont se atrapalhasse com tantos “monstros” reais, visíveis e muito palpáveis presentes tanto no conto-referência de King como no roteiro que o próprio Darabont escreveu.

Filmes prontos e vistos, as expectativas se confirmaram inversamente.


Shyamalan fez um filme fraco, que sequer assume o McGuffin, tentando dar explicações científicas para o fenômeno que faz com que as pessoas se matem. É um filme de zumbis sem zumbis. Os únicos zumbis são os telespectadores que, altura tanta, sentem mesmo certa osmose e querem dar cabo à própria vida por estarem assistindo a um filme tão chocho. Não há conclusão, nem ecológica, como se esperava. Os personagens não têm carisma e o Mark Walbergh não tira a camisa nenhuma vez – o que frustrou as expectativas da minha senhoura. Não tem sexo, nem grandes sustos, a tensão inicial se esvazia em menos de meia hora e o filme quase não se agüenta por hora e meia, como bem disse Nelson Moraes, num papo de MSN dia desses.

“Fim dos Tempos” é, porém, um filme a ser visto. Shyamalan mantém uma coerência temática, desenvolveu um estilo próprio, tem uma escrita cinematográfica marcante como poucos e cria algumas cenas realmente boas. Gostei especialmente da cena em que o carro entra em Princeton e se vê as escadas altas encostadas nas árvores e, acima, os corpos pendurados das pessoas que se mataram.

Já “O Nevoeiro” se desenvolve diferente: começa meio mal; uma tempestade provoca uma correria até o supermercado principal de um pequeno vilarejo. De repente, sabemos que a tempestade pode estar relacionada com uma névoa estranha e densa que toma a parte de fora do supermercado. A câmera do diretor está dentro do supermercado, junto as pessoas, acompanhando a perplexidade de todos. A tensão vai crescendo a medida que os “monstros” do lado de fora vão dando as caras e a medida que os personagens dentro do recinto vão revelando também seus fantasmas, medos e paranóias. O ápice é o discurso de uma religiosa, que acha que estão todos prestes a presenciar o… fim dos tempos. O discurso acaba em sangue e divide os cidadãos. Alguns decidem fugir. E o final do filme é poderoso, chocante e não se preocupa com explicações demoradas sobre o incidente que talvez tivesse causado a névoa e/ou os monstros.

Parece que Shyamalan, na ânsia de assustar com menos (onde menos é mais, manja? – aquela coisa minimalista) esqueceu que cinema é movimento, protagonista, antagonista, drama humano e… imagens. Darabont faz seu o trabalho redondo, não quer inventar nada, mas tem sensibilidade para não pisar o trash ou o gore, veja a cena quase final, dos tiros dentro do carro.

Em alguns momentos, o profissionalismo supera a vocação e a intuição. Sempre supera o pretensionismo.