shine - daniel lanois - 2003

Imagine que você fosse o detentor de um grande segredo: o segredo do grande sucesso musical. As maiores bandas querem que você produza seus discos; todos aqueles discos nos quais você tocou, viraram ouro. Você sabe como fazer um grande disco. Você sabe criar os climas certos para as canções. Você é sensível, sensitivo, cool até os ossos, transpira música. E seus discos não têm apenas o sucesso de público, mas também da crítica.

Muito bem, mas às vezes você quer fazer um disco seu.

E pensa no sucesso que talvez você tivesse – se quisesse.

Mas você não quer o sucesso com os seus discos. Você poderia usar as fórmulas, mas não quer. Você quer juntar amigos e criar músicas mágicas mas não quer que isso chegue até o rádio ou não quer assinar com uma gravadora – não quer excursionar, não precisa de groupies, não quer agüentar empresários gananciosos, nem fãs bestas… Quer apenas gravar bons discos que poucas pessoas vão acabar querendo e comprando e gostando de fato.

Esse cara é Daniel Lanois.

Ele produziu discos do U2, Bob Dylan, Willie Nelson, Peter Gabriel, Brian Eno entre vários outros. E fez discos próprios, pequenos, com amigos, que são puro ouro – pouquíssimo conhecidos, quase nunca comentados.

Seu melhor disco é o primeiro, “Acadie”, sobre o qual já escrevi em vários lugares. Dele, tirei uma música para a trilha de “Virgínia Berlim”.

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Mas só recentemente encontrei e comprei seu terceiro e mais comentado disco, “Shine”. É lindo. Consegue ser ainda mais intimista que “Acadie” – é menos soul, mais country de slide guitars. É um disco para se respirar enquanto se ouve. Não dá pra ler o jornal ou passar roupa ou costurar: a gente presta atenção naquilo, mesmo se não quiser.

A primeira faixa tem participação de Emmylou Harris, a segunda de Bono Vox (Falling at Your Feet). Depois o disco começa a ser de Lanois e sua voz segura mas miúda, algums vezes flertando com alguma levada pop, um suíngue latino, mas nada de arroubos. Duas ou três canções centrais são landscapes, puro delírio low-fi que a gente vê que ele curtiu fazer, ali, com sua guitarra, baixo aquela mesa enooooorme cheia de bo-tões-zi-nhos!

Se você achar, compre. Se encontrar para baixar, baixa tudo, grava o cd.
Aí, um dia em que estiver sozinho em casa, bota o disco, senta no sofá e fica ouvindo.
Depois me manda um e-mail agradecendo.

a caverna - 2005

O que justifica fazerem um filme onde um grupo de exploradores entra em uma caverna e acaba tendo que enfrentar um bando de monstrengos mutantes?
Pior: o que faz um camarada preferir um filme desses a, por exemplo, algo do Jim Jarmusch, como “Café & Cigarros”?

Porra, primeiro que eu acho esse “Café & Cigarros” uma das maiores merdas já registradas em celulóide… talvez só valha pelo episódio com Iggy Pop e Tom Waits, pela curiosidade simples, nada mais. Merda é pouco.

Já “A Caverna”, o filme dos exploradores versus monstrengos, não é uma merda.
Está longe, muito longe, de ser um clássico, mas pode-se ver grandes qualidades nele, especialmente quando se liga o foda-se e se abre uma cerva.
É filme para ver bebendo.

Caveposter

O diretor é Bruce Hunt, diretor de segunda unidade da trilogia “Matrix”. Ele faz as coisas direitinho, assim como o editor, Brian Berdan, o mesmo de “Assassinos por Natureza”

O que difere esse de outros filmes de terror é que a trama se desenvolve em cenários reais, cavernas em aquíferos, alguns dos maiores e menos conhecidos locais da Terra.

A fotografia é bacana, a cinematografia é de gente especializada nesse tipo de ambiente e isso contribui muito com a sensação de claustrofobia.

Isso pode justificar um filme fraco, pode ser o diferencial: vermos ambientes diferentes em um filme de ação e não naqueles modorrentos documentários que passam na National Geographic.
Aconselho ver também os extras, com o documentário dos especialistas, com mais imagens das impressionantes cavernas. Locações na Romênia e em Yucatán, México.

É um filme que não assusta e não muda sua vida, mas que pode fazer você passar agradavelmente uma hora e meia.
Diferente do filmeco de capítulos, onde personagens ficam só falando dispensáveis merdas enquanto fumam e tomam café, no filme de Jarmusch.

Mesmo achando que ela não gosta de filmes de terror, creio que até Lucia Malla ia gostar d´”A Caverna”.

brimstone & treacle - 1982

A aparente tranquilidade de uma família é perturbada por um jovem sensual. Você já viu esse filme, mas não com o Sting.

O nome do inglês Dennis Potter sempre esteve ligado a teleséries inglesas ou peças de teatro de fundo romântico e musical. Em 1976 o autor assustou a direção da BBC ao apresentar o projeto de uma série - que foi chamada de “nauseating” - sobre um encontrão casual numa esquina e as tenebrosas conseqüências desse incidente. A série banida da BBC chegou ao teatro no ano seguinte e aos cinemas seis anos depois a reboque do buxixo. Na seqüência ganhou uma campanha da Liga das Senhoras Cristãs ou alguma entidade similar lá de Londres. Elas diziam que o filme era sinistro demais e anti-cristão, mas talvez tenham ficado todas molhadinhas com os ombros nus do Sting, que tinha 31 anos mas aparentava uns 18.

O filme saiu no Brasil em VHS mas nunca mais ouvi falar dele. Se não me engano, tinha o título de “Enxofre e Melaço”. Não encontrei nada sobre o filme na internet no Brasil. O interessante trailer ta no YouTube. Veja.

Manjou? É religiosamente sinistro, imagino que hoje não se faria uma filme como esse, com todo esse subtexto religioso. A trama é essa: um escritor de livros religiosos, casada com uma fervorosa, tem uma filha catatônica; surge Sting, como um anjo demoníaco, que perturba e traz à tona o rancor contra Deus.

A direção do filme é de Richard Loncraine, um camarada de poucos filmes, carreira irregular, que tem como destaque o “Ricardo III”, adaptação de Shakespeare de e com Ian McKellen. É um filme que subverte alguns paradigmas ingleses, como “Brimstone & Treacle”, talvez o ponto alto de Loncraine.

Brims

Infelizmente, filme que poucos devem ter visto por aqui, renegado ao obscurantismo dos filmes críticos e religiosamente polêmicos.

mortos de fome - 1999

“Mortos de Fome” é um filme de terror incomum, já que tudo nele parece meio fora de lugar. Estamos em 1847, durante a disputa entre norte-americanos e mexicanos pela fronteira e anexação do Texas, um ano especialmente mais frio nas Serras Nevadas. Temos um herói de guerra que é, na verdade, um covarde. Um comandante que come carne humana. Um acampamento, o Forte Spencer, com tipos peculiares: um médico alcoólatra, um casal de índios, desiludidos desnorteados com algum espírito bravio. Visto de longe, o filme parece um fumetti onde Ken Parker encontra Dylan Dog.

Ravenous

Mas temos ali também dois grandes atores, Guy Pearce e Robert Carlyle, apoiados em David Arquette, Jeremy Davies e Jeffrey Jones. Grande quinteto, vai dizer?

Na bárbara trilha sonora, que parece igualmente estranha e deslocada, casando perfeitamente com o conjunto todo, temos Michael Nyman e Damon Albarn. O primeiro é o prolífico compositor de trilhas cult como alguns Greenaway, “O Piano” e “Gattaca”. O segundo é vocalista e líder do Blur, idealizador do Gorillaz e voz e piano da banda The Good, The Bad and The Queen – uma pessoa que não se espera ver em uma trilha de filme de terror.

Bem, mas quem é o regente desse samba do criolo doido? Uma diretora fofa, que tem um pé no ativismo vegan e nos direitos dos homossexuais: Antonia Bird. Estranho, né? Não era pra funcionar. Uma vegetariana fazendo filme de canibalismo? Um filme extremamente macho, sem espaço para leituras homoeróticas? (Ah, bem, gente comendo gente, nham, nham…)

Nham Nham Nham

Pois funcionou demais, é um dos meus filmes de terror preferidos.

Antonia Bird deixou a TV brevemente para fazer 4 filmes para o cinema. O primeiro foi “O Padre”, elogiado drama sobre os dilemas de um padre gay. Depois houve uma aventura road e um policial também com Robert Carlyle. Até chegar ao assustador “Mortos de Fome”. Aí Bird voltou para a TV.

Segundo o IMDB, ela tem um novo projeto para cinema, novamente com Carlyle, uma comédia com invasores de corpos em Londres. O roteiro é de Irvine Welsh, de “Trainspotting”. Esse tipo de coisa sim, me dá medo.

a professora de piano - 2001

Tá certo, dirão os especialistas em cultura pop, a violência de Tarantino é gráfica, referencial, não deve ser levada a sério… É mais alegoria, fantasia, cinema trash levado a algum grau de seriedade por conta da metalinguagem e etc… Mas a violência ainda é muito citada quando se fala do diretor. Uma amiga, depois de ver “Kill Bill”, achou vi-o-len-tís-si-mo e me desrecomendou por conta da violência. Ora, deixaria até meu garoto de 11 anos ver o filme! As cabeças decepadas e o sangue jorrando é mais COMÉDIA. Mas, enfim, tem gente que leva tudo muito à sério, talvez.

O fato é que o mais sério, violento e visceral diretor da atualidade é Michael Haneke. É dele o filme que tem o singelo título de “A Professora de Piano”, mas que de singelo não tem nada, muito menos a tal professora.

Haneke é difícil, seus “Cachê” e “Código Desconhecido” são interessantes, painéis multifacetados, entrecruzando histórias, mas, confesso, um pouco demais para mim. Um pouco Tarkovski demais pra mim. Nesse “A Professora de Piano”, porém, tenho que admitir, ele acerta totalmente, de maneira desconcertante, absurdamente chocante, como um texto violento, cheio de vírgulas, no qual, em cada entrecho, dividido por sinais gráficos, pudéssemos encontrar, gotas, de, sangue, dividindo, idéias.

La Pianiste 1

Isabelle Huppert é a tal professora em seu, muito provável, melhor papel. É uma sisuda (como convém) pianista que tem uma mãe possessiva. Com algum sadismo trata seus alunos e com muito masoquismo corta-se no banheiro de casa com uma gilete. Também se diverte com filmes pornôs - às escondidas da mãe, é claro.

Aparece-lhe o jovem Benoit Magimel (que também está muito bem no ótimo “Rios Vermelhos 2″) e as coisas vão para o ralo. O ralo da sinceridade, no caso.

Ele a afronta com seu estilo de tocar. E também se mostra a fim dela. Aí ela desabrocha em toda sua violência e ressentimento. Não dá pra falar mais - ou seria revelador ou esse texto seria censurado… A coisa fede. Uma análise psicológica mais profunda talvez pudesse ser feita pelo Doni, enfronhado que está nas idéias freudianas.

A direção de Haneke é maravilhosa nas nuances e a dupla central levou a Palma de Ouro em Cannes 2001. Foi relançado agora em DVD, com extras - que ainda não vi. Tire as crianças da sala e prepare os nervos. E não procure grafismos tarantinescos.

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