A propósito desse post de Rafael Galvão.

Quando comecei a ter algum entendimento das coisas, botei na cabeça, a partir de informações de adultos e o que lia aqui e ali em jornais, que os filmes de 007 eram diversão, os filmes de Hitchcock eram profundos. Cresci achando que Hitch era chato – com um nome desses podia até ser alemão! E eu adorava James Bond – qualquer coisa que fosse “o contrário” devia ser realmente terrível.

A vida porém é estranha e eu nem conhecia cinema direito quando me vi fazendo um curso sobre o Expressionismo Alemão (!!!) – e achando que aqueles caras Lang, Wiene, Murnau, etc…, não eram nada chatos, não! Ei, os caras eram ge-ni-ais!

Assim, decidi me aprofundar em Hitch e assisti tanto quanto pude (acho que vi todos os filmes lançados em vídeo no Brasil, inclusive os mudos) e li livros como o fantástico “Hitchcock-Truffaut”. Era tudo muito mais divertido que os 007 – sem dizer que a franquia do agente entrava em decadência. Mas eu não estava de todo enganado, já que o gordinho muito havia bebido dos alemães.

Influencia

Críticos, especialistas em cinema, historiadores, estudiosos de quase todas as categorias já se debruçaram sobre os filmes de Hitchcock e não sou eu que vou lançar novas luzes sobre a obra Hitchcockiana, especialmente sobre seu filme mais famoso, “Psicose”. Particularmente, gosto mais de “Um Corpo que Cai” ou “Os Pássaros”, filmes que suportam melhor revisitas. “Psicose” tem uma reviravolta genial, uma conclusão original e assustadora, mas a graça se perde quando revemos. O mesmo acontece com “Sexto Sentido”, do Shyamalan.

Hitch decidiu rodar “Psicose” em preto-e-branco para que o sangue não chocasse muito a audiência – e para dar um clima mais realista a essa história fantástica. Era um diretor que respeitava a platéia – e eu não me impressionaria se, no final da vida, ele decidisse refilmar “Psicose”. Sim, as platéias mudaram – e o que “Psicose” tinha de visualmente assustador talvez tivesse se diluído. O diretor já tinha usado o expediente do remake para dar vida a “O Homem que Sabia Demais” – a primeira versão é de 1934, a segunda é de 1956.

Esse post é para dizer que acho simpático e até importante o remake de Gus Van Sant. A opção por seguir os enquadramentos e o roteiro originais mostra respeito e admiração. A escolha dos atores também. Num primeiro momento, o remake abre nossa percepção para outros pontos do filme, o rejuvenesce, refresca. A seguir, o filme atualiza para a nova platéia. Minha filha que a-do-ra filmes de terror nunca ficou animada em assistir a “Psicose”, especialmente por ser em p&b. Na nova versão, ficou atraente para ela.

Psycho 2

O remake também vira ponte para o original. “Pô, que filme maneiro! Como será o original?” – estou quase ouvindo Isabelle falar, com aquele sotaque carioca carregado dela.
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Puristas podem achar um absurdo, mas eu não acho nada disso absurdo, nem remakes, nem seqüências, nem prequências… Nada. São possibilidades que se abrem e podem e devem ser exploradas. Adoraria ver um Tim Burton fazer um “Gabinete do Dr. Caligari”, assim como adorei ver Coppola refazer o “Drácula”. Acho divertidas as seqüências de “Psicose” (a segunda é legal, a terceira é trash-paródia) e creio que o cinema (assim como a música, mas muito mais que a literatura) se auto-alimenta; então chego a vibrar com filmes como “Temos Vagas” (que emula “Psicose”) ou “Paranóia” (esse último é uma nova homenagem a “Janela Indiscreta”).

É comum, ér, cinéfilos que assistiram a um remake como esse, soltarem: “ah, mas o original é muito melhor!”. A frase, em si, é que não é nada original.